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É possível que o século XX tenha sido o mais sofrido e desgraçado da história da humanidade. A despeito dos extraordinários progressos em diversos campos da ciência e do bem-estar, foi no “longo século vinte” que ocorreram as guerras mais arrasadoras da história, em termos de destruição e número de vítimas.

Mas guerras sempre existiram em todas as épocas. O século XX, contudo, reservou uma singularidade sinistra – foi nele que surgiram as duas ideologias mais sanguinárias da história, o nazismo e o comunismo. Ambos mataram milhões de pessoas. Qual delas foi a pior? Nesse início de século XXI, quando o nazismo está extinto, e o comunismo acuado, parece uma questão meramente retórica, boa para uma discussão informal. Convém lembrar, contudo, que estas ideologias ainda estão vivas na cabeça de muito gente, de modo que não se pode descartar a hipótese de que um dia ainda vamos ter este dilema pela frente.

Um homem, no passado, efetivamente passou um dia por este dilema, e da boa solução do mesmo dependia a sorte de seu povo, e por tabela, de toda a humanidade. Este homem era Winston Churchill, e a época era 1941. Comandando a heróica resistência do povo inglês, ele ouviu a proposta de uma paz em separado e aliança para um ataque conjunto da Alemanha e da Inglaterra contra a URSS. Embora visceralmente anti-comunista, Churchill recusou de pronto. Foi nessa época que surgiu aquela sua frase famosa: “Se Hitler invadir o inferno, eu me aliarei ao demônio!”. Da acertada decisão que o grande estadista britânico tomou, devemos o fato de estarmos aqui agora. Churchill já havia percebido que os nazistas, então no auge do poderio, não tencionavam destruir somente a URSS, mas também o ocidente. A URSS, por outro lado, dilacerada pelos expurgos de Stalin, não representava senão uma ameaça de longo prazo.

Mas excluídas as circunstâncias do momento, qual regime é, intrinsecamente, pior? O nazista ou o comunista?

Se o parâmetro for o número de vítimas, o comunismo é pior. Os nazistas exterminaram seis milhões de judeus, enquanto que as vítimas dos expurgos e das grandes fomes na URSS e na China chegam a dezenas de milhões – setenta, oitenta, cem, nem quero saber, pois é sinistramente frívolo especular sobre dezenas de milhões de vidas humanas. Mas há uma diferença fundamental. As seis milhões de vítimas do nazismo foram mortas de forma deliberada, premeditada e planejada com esmero. Excluindo-se os dissidentes que foram executados, a grande maioria das vítimas do comunismo não foi morta deliberadamente, mas foi deixada morrer. Pela fome, pelo frio, pela exaustão, pela falta de medicamentos. Se, do ponto de vista de quem foi massacrado, saber se houve ou não intenção de matar é uma questão inteiramente irrelevante, não o é do ponto de vista de quem analisa a história e tem a perspectiva de uma dia defrontar-se com um regime deste tipo. Assim, chacinar de forma fria e industrial é efetivamente pior do que deixar que pessoas morram como moscas. E ainda, de forma subjetiva, pode-se responsabilizar os nazistas por todas as mortes da segunda guerra mundial, já que foram eles que começaram a guerra. E de forma ainda mais subjetiva, alguém já responsabilizou o “capitalismo” por todas as mortes da primeira guerra mundial, já que esta guerra se originou das rivalidades das potências imperialistas…

É difícil, portanto, comparar a malignidade do regime nazista com a malignidade do regime comunista, pois ambos foram malignos de forma peculiar. Só as diferenças são incontestes. O nazismo, se tratou com inaudita crueldade a seus inimigos – tanto aqueles que se declararam inimigos quanto aqueles a quem o nazismo declarou como inimigos, como os judeus – por outro lado foi muito benevolente com seus cidadãos. É um dado embaraçoso para as gerações atuais da Alemanha, mas o caso é que o nazismo proporcionou uma espetacular recuperação econômica da Alemanha depauperada (e sem auxílio americano), deu pleno emprego aos trabalhadores, saúde e otimismo para todos. Reside nisso a resposta à pergunta tantas vezes formulada, sobre como e por que os alemães permitiram tão dócilmente que o nazismo se instalasse. Todos na verdade estavam tão satisfeitos que preferiam fechar os olhos aos desmandos de Hitler, e havia verdadeiro pavor quanto à possibilidade de retorno ao caos inflacionário da república de Weimar.

Já o comunismo, em termos de atrocidades cometidas contra opositores – prisões, censura, torturas, fuzilamentos – não chega a ser extraordinário. É uma ditadura entre tantas. Mas tem uma característica verdadeiramente única entre todos os regimes políticos que já surgiram um dia neste planeta: matou em maior quantidade a cidadãos apolíticos do que a ativistas políticos adversários. A esmagadora maioria das pessoas que pereceram sob um regime comunista não tinha a menor intenção de empunhar uma arma, ou mesmo de fazer um discurso contra o ditador – eram meros trabalhadores, camponeses, famílias inteiras que morreram à míngua em um país onde a coletivização forçada causara a paralização da produção agrícola, milhões de inocentes deslocados à força para regiões estéreis, e nas cidades outros tantos morriam porque a paralização do comércio não permitia chegar a suas mãos diversos ítens de primeira necessidade. Não foram vítimas de fuzilamentos, mas da incúria administrativa. Nenhum regime produziu mais repulsa no cidadão comum do que o comunista. Como se sabe, Cuba produziu mais exilados do que Chile, Argentina e Brasil juntos, sendo que os exilados do cone sul eram ativistas políticos perseguidos pela ditadura, e os exilados de Cuba eram profissionais que, em sua maioria, nunca se interessaram por política, apenas queriam viver em um país onde pudessem ser donos de alguma coisa mais que a roupa do corpo.

E no entanto, muitos por aqui ainda sonham com o comunismo regenerador que um dia irá redistribuir nossas riquezas e proporcionar a todos uma vida digna. São gente que não tem a menor idéia de como é realmente viver em um país comunista, mas isso também não é desculpa, já que a finalidade do raciocínio é inferir, mediante deduções, aquilo que não está ao alcance dos olhos. Quem não enxerga o óbvio, ou não sabe raciocinar, ou age de má fé. Muitos alemães orientais fugiram para a Alemanha Ocidental. Alguém já viu um alemão ocidental fugir para o lado oriental? Muitos chineses fugiram para Hong Kong. Alguém já viu algum cidadão de Hong Kong buscar na China refúgio contra a opressão colonial britânica? Muitos cubanos fugiram para os Estados Unidos.

Até aí não é novidade, pois cruzar a fronteira e ir trabalhar no norte é objetivo de mexicanos, porto-riquenhos, dominicanos e inclusive brasileiros. Mas se estas pessoas são pobres e buscam uma vida melhor, por que não emigram para Cuba, onde não há desemprego, a saúde e a educação são gratuitas? Ao invés de ficar especulando sobre Cuba, minha geração bem poderia ter tomado uma medida mais simples: perguntar a um cubano o que ele acha de Fidel. Mas ora, povo cubano, quem são esses caras? Cuba não era deles, Cuba era nossa. Ela era o nosso orgulho, a nossa revanche contra o imperialismo americano, a nossa esperança contra a ditadura. Ela tinha que ser do jeito que imaginávamos. Alguns ainda estão imaginando. As ilusões generosas só vão embora com muita relutância. Aqueles que ainda tem um lampejo de raciocínio recusam-se a ficar apenas repetindo palavras-de-ordem, e vem com “fatos”: Cuba tem 100% de alfabetização, a saúde é gratuita, boa parte da população tem curso superior, há mais médicos por habitante do que em qualquer lugar nas Américas.

Mas os bem informados hão de saber que a Cuba pré-Fidel era um país acima da média sul-americana, próximo do padrão da Argentina. A Cuba de 1958 tinha já 80% de alfabetização. Examinando de perto os benefícios da Ilha de Fidel, o que se verifica é que tudo não passa de um engodo, um jogo de soma-zero onde o que se ganha de um lado se perde do outro. Vejamos:

- Aqui o trabalhador passa necessidade porque não tem dinheiro para comprar o que precisa, em Cuba o trabalhador passa necessidade porque não tem o que comprar com o seu dinheiro;

- Aqui faltam médicos nos ambulatórios, em Cuba há médicos para todos, mas os remédios que eles receitam nunca são encontrados;

- Aqui poucos chegam ao ensino universitário, em Cuba a universidade está franqueada a todos, mas ninguém melhora de vida depois de formado. O salário de um engenheiro é de 30 dólares por mês, e ele em geral sobrevive como mecânico de automóveis.

O fato é que o trabalhador cubano nunca viveu melhor que o trabalhador do resto da América do Sul. As agruras são as mesmas, apenas camufladas sob a forma de racionamento, necessidade de haver vagas para todos, etc. A única diferença indiscutível entre o primeiro e o segundo é que o segundo tem a seu dispor muito mais opções de entretenimento. Tal como o alemão que vivia sob Hitler.

Mas chega a ser perda de tempo discutir o comunismo em Cuba, pela simples razão de que Cuba não é mais comunista strictu sensu – afinal, que comunismo é esse onde o dólar circula? Que moral há para enaltecer os valores do trabalho em um lugar onde a ocupação mais rendosa é a de garçon que recebe gorjeta em dólares? Se o igualitarismo deve ser mantido, então se deveria confiscar os dólares daqueles que tem família em Miami, e distribui-los para todo o povo. Isto não será feito por razões óbvias – aqueles que remetem os dólares deixariam de fazê-lo, e Cuba sobrevive dessas esmolas. O regime comunista cubano foi reduzido a uma caricatura, assim como o chinês, que tornou-se um regime híbrido que alguns batizaram de “capitalismo autoritário”. A prioridade dos dirigentes cubanos e chineses é se manter no poder. Se necessário vai-se o comunismo, mas fica a ditadura. O único regime comunista genuíno que ainda existe no planeta é o norte-coreano. Por enquanto.

*Texto de Pedro Mundim e imagem de Alexandre Borges