Muito provavelmente este não era nem o local nem o momento ideal para se identificar o estado de uma nação que, doze anos depois do pior ataque terrorista de sua história, tenta se recuperar de uma crise econômica de proporções gigantescas, causada em grande parte pelo endividamento gerado pelas invasões do Iraque e do Afeganistão. Mas as centenas de familiares das vítimas do 11 de setembro de 2001, reunidas em uma cerimônia histórica no Marco Zero, onde ficavam a Torres Gêmeas, aplaudiram enfaticamente o ex-presidente George W. Bush e o ex-prefeito Rudy Giuliani, ambos republicanos, enquanto o presidente Barack Obama e o atual prefeito Michael Bloomberg foram recebidos friamente.

A cerimônia contava com o governador de Nova Jersey, Chris Christie, uma da principais estrelas da oposição, o de Nova York, Andrew Cuomo, visto como o futuro do Partido Democrata, e a secretária de Estado, Hillary Clinton. Para evitar que a grande concentração de caciques desse à cerimônia um caráter de campanha eleitoral, a prefeitura pediu que os discursos fossem breves e apolíticos. Obama leu um trecho do Salmo 46, que trata do refúgio último das nações em destroços: Deus. Bush escolheu uma carta de Abraham Lincoln dedicada a uma mãe que perdeu cinco filhos na Guerra Civil Americana.

Durante a semana, líderes religiosos protestaram contra a ausência de sacerdotes no púlpito dos 10 anos do 11 de setembro, mas o dia foi preenchido por promessas a Deus, inclusive do ex-prefeito Giuliani, que terminou sua leitura de texto bíblico pedindo bênçãos aos soldados que pereceram nos campos de batalha das guerras pós-11 de setembro, às famílias das vítimas dos ataques terroristas e, finalmente, à América. Todos os discursos foram intercalados pela tradicional – e nem por isso menos emocionante – declamação dos nomes das 2.983 pessoas que morreram há dez anos na série de ataques conduzidos pela Al-Qaeda em solo americano.

Em um ano repleto de ineditismos, o primeiro encontro de Bush e Obama no Marco Zero se deu no momento em que a primeira torre do novo complexo do World Trade Center já toma forma aos fundos do palanque, guardada por uma gigantesca bandeira americana, e um dia antes de o Memorial 11 de Setembro ser aberto oficialmente ao público. Museu vivo das chagas do dia mais trágico da história contemporânea dos EUA, o prédio foi inaugurado oficialmente nesta manhã, em uma visita exclusiva para os familiares das vítimas do terror.

“O museu é belíssimo, mas os nomes não têm identificação fácil. Para nós, este é o cemitério possível, onde nossos queridos pereceram para sempre”, dizia, emocionada, Janice Facuzza, que perdeu o irmão, 53 anos, um dos muitos funcionários da empresa Contor Fitzgerald a perecer no atentado. Os familiares se emocionaram especialmente com a apresentação de Paul Simon. Ele substituiu de última hora o clássico “Like a Bridge Over Troubled Water” pela exata “Sounds of Silence”. Contido, dedilhando o violão, com um boné do Memorial, o compositor que encarna como poucos a alma nova-iorquino fez familiares se abraçarem entre choros e olhares intensos para o céu. James Taylor e sua voz de veludo também marcaram presença.

“A dor não passa nunca, mas ao menos aqui, dividindo o sofrimento com os outros familiares, conseguimos algum conforto”, dizia Janice, segurando uma cartolina com fotos do irmão. Ela veio do Queens para o tributo, mas muitos presentes tiveram de atravessar muitas outras pontes para chegar a Manhattan. Com o objetivo de cumprir a promessa que fez a sua prima, Lou Garcez, 55 anos, dirigiu mais de seis horas de Maryland para prestar sus homenagem ao primo Angel, bombeiro de 35 anos, que morreu tentando salvar vidas no dia fatídico. “Ninguém pode esquecer o que aconteceu aqui. Foi o Pearl Harbor de nossa geração. Nosso país, nosso povo foi atacado. Por favor, não nos esqueçamos disso jamais!”, disse, emocionado.

“Eles eram nossos vizinhos, nossos amigos, nossos esposos, nossos pais. Eles eram os que vieram correndo para cá com o objetivo de salvar vidas. Dez anos se passaram desde que um céu perfeito se transformou no negrume da noite. Desde então temos vivido entre a luz e as sombras”, disse Bloomberg, em tom sóbrio. O prefeito também lembrou que, em uma década, os órfãos do 11 de setembro cresceram e se tornaram jovens adultos. Esta foi, quiçá, a imagem mais dura do dia, com os depoimentos de meninos e meninas que mal conheceram os pais, mas que, com voz trêmula, no alto do palanque improvisado no Marco Zero, juraram jamais esquecer do rosto, do carinho, do amor dos familiares para sempre desaparecidos.

Enquanto isso, na área externa ao complexo do 9/11 Memorial, os americanos relembraram a tragédia em meio a um grande aparato de segurança. Centenas de policiais uniformizados e homens à paisana isolaram todo o perímetro do complexo do World Trade Center. De carro, chegar perto nem pensar. Dependendo da zona, o bloqueio chegava a dez quarteirões. Nas ruas próximas, só carros da polícia circulavam. A pé, era possível caminhar livremente até a distância de um quarteirão do complexo.

Para se aproximar dos telões que transmitiam o que acontecia do lado de dentro das grandes cercas do 9/11 Memorial, só passando por uma minuciosa revista. Policiais com detectores de metais paravam todos, revistando as bolsas das mulheres e não deixando ninguém entrar na área isolada de mochila. Durante toda a cerimônia, os check-points registraram longas filas. Americanos e turistas querendo se aproximar para prestar seu tributo às pessoas que morreram naquela terça. Dentro do perímetro, um clima muito diferente dos dias anteriores.

Nada de turistas posando para fotos com a nova torre do 1 World Trade Center ao fundo. O momento era de luto, lembrança e tristeza. Amigos, familiares que não estavam na cerimônia oficial e pessoas comuns, como José Colón, um “apoiador dos bombeiros”, de acordo com suas próprias palavras. “Eu caminhei por toda Manhattan visitando os quartéis de bombeiros. Estou aqui para lembrar todos eles”, disse o senhor de origem porto-riquenha, vestido com um colete com várias insígnias de diferentes batalhões de Nova York. “Eu mesma fiz”, disse.

Dentro desse perímetro, as pessoas – muitas delas enroladas em bandeiras americanas e com fotos de vítimas dos atentados afixadas no peito – se concentravam nas quinas do grande quarteirão do memorial e o canteiro de obras do novo World Trade Center. Entre elas, muitos jornalistas, alguns militares, e claro, policiais. No topo de um prédio próximo, agentes observavam a movimentação usando binóculos, e, de tempos em tempos, carros pretos passavam por entre as barreiras de contenção posicionadas junto ao meio fio.

Todos acompanhavam a leitura dos nomes das vítimas com atenção e respeitavam cada momento de silêncio anunciado pelo cerimonial. No total foram seis, marcados exatamente nos minutos dos principais acontecimentos da tragédia: o ataque às duas torres (8h46 e 9h03), o ataque ao Pentágono (9h37), a queda do voo 93 na Pensilvânia (10h03) e a queda das duas torres (9h59 e 10h28). Em cada um desses momentos, um sino soava três vezes.

Ao fim de quase quatro horas, o tributo teve fim com a caminhada dos familiares das vítimas pelo Memorial. E um país ainda de luto deixou o sul de Manhattan, doze anos depois do infame ataque a civis e trabalhadores, querendo acreditar, como lembrou o governador Cuomo, nas quatro ‘liberdades’ fundamentais do país, bebendo do notório discurso de Roosevelt em 1941. A liberdade de expressão, a religiosa, a de ambição pessoal e, finalmente, a que ecoou mais forte no dia ensolarado que foi se turvando com o passar das horas: a liberdade de enfrentar o medo.
Fonte: TheWhiteHouse

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