Propagandas de carro reforçam as qualidades do produto, mas não revelam que o modelo mostrado na imagem custa muito além do preço informado no anúncio

Ter um carro zero é um dos principais sonhos de consumo de milhões de brasileiros. No entanto, o consumidor deve ter muito cuidado na hora da escolha, principalmente em relação aos anúncios. Uma pesquisa realizada pelo Idec constatou que o carro mostrado com toda pompa costuma valer muito mais do que o preço explicitamente anunciado. Normalmente, o modelo publicado costuma ter uma série de restrições que nem estão informadas claramente para o consumidor.

O Instituto pesquisou nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e nas revistas especializadas, Quatro Rodas e Autoesporte, no mês de junho. Foram consideradas apenas as propagandas que informavam algum preço. Anúncios sem ambiguidades, subentendidos e sem diferença de preço entre o carro da foto e o valor informado não foram considerados, ou seja, trata-se de uma pesquisa qualitativa, e não quantitativa, pois o Idec considerou que fornecer informações imprecisas é uma prática comum das montadoras.

Assim, o fato de algumas empresas não estarem presentes na pesquisa não quer dizer, portanto, que os anúncios por elas elaborados são sempre precisos em termos de informação, já que a pesquisa se ateve ao que foi publicado no mês de junho. O Idec também identificou que, não raro, as mesmas campanhas publicitárias aqui avaliadas são exibidas na televisão, com o agravante de os detalhes da oferta “piscarem” na tela por pouquíssimos segundos, o que torna praticamente impossível a total compreensão da mensagem.

Forma analisadas propagandas de carro de oito das principais montadoras presentes no país e pesquisou-se nos sites de cada empresa o valor correspondente ao veículo que ilustrava o anúncio. Na maioria dos casos, o preço indicado não condiz com as características do modelo mostrado – nas peças avaliadas, a diferença de preço entre um e outro varia de R$ 900 até mais R$ 15 mil!

Diante desse cenário o órgão aconselha: Se você vir uma propaganda de carro e logo se animar para ir à concessionária, respire fundo, dispa-se do ímpeto consumista, leia as letras miúdas com atenção e, quem sabe, dê alguma risada da desfaçatez dos anunciantes. Provavelmente chegará à conclusão de que não é hora de comprar um carro – ou ao menos vai conseguir fazer a razão prevalecer sobre a emoção.

Veja a tabela abaixo com um resumo do resultado da análise.

Em caso de dificuldade para visualizar, clique em cima da imagem.

precocarro

A maior diferença entre o preço que aparece em destaque e o valor real do carro anunciado foi encontrada em um anúncio da montadora francesa Citroën: nada menos que R$ 15.370. A publicidade que destacava inúmeros atrativos, enfatizando  o novo modelo de para-brisa e suas vantagens,  anunciava:  ”Versões a partir de R$ 39.990″ . Entretanto, a versão mais barata com o incrível para-brisa Zenith não sai por menos de R$ 45.160. Com Zenith, motor 122 cavalos e câmbio automático o preço mínimo pula para R$ 55.360.

O Idec avaliou a linguagem abordagem das propaganda e concluiu que a estratégia por trás de anúncios como esse da Citroen é seduzir o consumidor para que ele se disponha a ir a uma concessionária. Na loja, é hora de o vendedor entrar em cena e convencer o cliente a comprar o carro. “Os vendedores costumam usar uma tática constrangedora. Mais ou menos assim: ‘Um carro com esses opcionais custa apenas dois mil a mais. Vamos lá, não é essa pequena diferença que vai impedir que fechemos o negócio’. Aí, a maioria dos clientes, por impulso e constrangimento, acaba batendo o martelo”, explica Fernando Monteiro, professor de ética e legislação publicitária da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Para Carlos Thadeu de Oliveira, gerente de testes e pesquisas do Idec, propagandas desse tipo podem ser consideradas enganosas. “As informações essenciais (como dizer que o preço anunciado se refere às versões básicas) não são comunicadas com a mesma clareza utilizada para anunciar as qualidades do veículo. O que é bom é mostrado; o que é ruim, fica escondido.  Isso pode induzir o consumidor a erro”, diz ele.

A Citroen não está sozinha nessa estratégia de Marketing. Um anúncio da montadora Fiat, de quase uma página de jornal, com um Novo Palio todo equipado afirmava: “Até ontem não existia carro nessa categoria com teto solar”. Abaixo da foto principal, vê-se um close do “teto solar elétrico Sky Wind”. Um pouco mais abaixo, o preço: R$ 31.990. No entanto, o carro com as características apresentadas, conforme o site da montadora, sai por R$ 43.647. A versão da foto é a top de linha e com o teto-solar.

Seguido a  moda dos tetos solares ou panorâmicos, para promover seu novo modelo, o 208, a Peugeot alardeia o “teto de vidro panorâmico” ao lado da mensagem “versões com ar-condicionado e air bags a partir de R$ 39.990″. Mas um carro com tudo isso (e também na cor branca, conforme mostra a foto) não sai por menos de R$ 46.490.

O Idec constatou que os anúncios, de uma maneira geral, induzem o consumidor a interpretações equivocadas usando letras miúdas para explicar as restrições dos modelos anunciados. Cabe destacar que essa prática está em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor que afirma que  ”A informação tem de ser clara, imediata, de fácil compreensão.” Assim, ao ver a propaganda, o consumidor,  tem que entender imediatamente que o preço anunciado não é o do produto exibido na imagem. Não pode ter meio termo, não se pode exigir do consumidor a expertise de decifrar os subentendidos”, acrescenta Monteiro.
Fonte: Idec

 

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