Em um jogo recente pelo campeonato alemão (Werder Bremen x Nuremberg), aconteceu algo raro em termos de fair play no mundo do futebol. O juiz marcou um pênalti, mas o próprio jogador do time beneficiado pela arbitragem contestou a marcação e o pênalti foi anulado!

Ao final daquele jogo o jogador ainda declarou: “Por um momento eu joguei com a minha consciência, mas eu não gostaria de ganhar dessa forma”. Dando a entender que ele até poderia ter tirado vantagem da marcação do juiz, mas não o fez, por uma questão de consciência. Uma consciência bem formada, é claro.

Fair play é um conceito normalmente vinculado à ética no mundo esportivo. Literalmente, significa jogo limpo ou jogo justo. Esta lição de fair play no futebol também deveria acontecer no mundo corporativo. À semelhança dos esportes, muitos ambientes de trabalho também são marcados pela competitividade. Disputam-se metas, prestígio, e cargos. Surgem conflitos, jogos de poder, e o inconfessável vale-tudo para se alcançar uma promoção. Poucas vezes se joga limpo. E a tensão entre o capital e o trabalho só faz exacerbar essas questões.

Nas relações do trabalho, “jogar” segundo as regras e dentro da legalidade é obrigação, é o básico. O que não impede, todavia, a prevalência da cultura da malandragem, de se levar vantagem em tudo, de se trabalhar só “debaixo do olho do dono”, de apresentar atestado médico falso, e outras “catimbas” ocupacionais.

A letra da lei também não altera a racionalidade capitalista, que é fria, impessoal, e avessa à camaradagens – “Homens São Máquinas” – já disse La Mettrie, muito tempo atrás. Por isso é que a prática do fair play no ambiente de trabalho é importante; porque ela é capaz de expandir a fronteira dos regulamentos, dos acordos coletivos e das leis, estimulando a manifestação de deferências e valorizando a dimensão humana do trabalho.

Tomemos, por exemplo, uma situação de aperto financeiro que obriga uma empresa a dispensar um bom empregado. Qual a conduta a ser adotada? Há empresas que não avisam com a devida antecedência, outras demitem o empregado às vésperas de uma cirurgia. Muitas usam a estratégia do isolamento, fazendo o empregado se sentir um “pária”, forçando-o a demitir-se, ou começam a atrasar salários. O trabalhador se sente como se estivesse tomando um cartão vermelho. Essas condutas revelam uma total ausência de fair play.

Independentemente de haver previsão normativa, o Judiciário tem coibido essas condutas mediante robustas indenizações. Num mundo pós-moderno, todo gestor de pessoas deveria saber que práticas corporativas desprovidas de fair play são temerárias e podem custar caro.

Voltando ao exemplo em questão, qual seria a conduta a ser adotada por uma empresa que praticasse o fair play no ambiente de trabalho? Provavelmente a dispensa do empregado seria precedida de uma conversa franca e respeitosa. O trabalhador contaria com um tempo elástico para buscar uma nova colocação profissional, e receberia uma verba rescisória generosa. Até o mais humilde empregado poderia ser surpreendido com uma singela homenagem de despedida. Ao sair pela porta da frente da empresa e com a cabeça erguida, o trabalhador teria a sua dignidade preservada. Resultado: essa conduta irradiaria segurança nos colegas que ficaram, mantendo o clima organizacional em alta. Não existem leis para essas coisas, apenas os ditames da consciência. De uma boa consciência empresarial, é claro.

Naquela partida de futebol, foi interessante observar que o placar do jogo acabou ficando em segundo plano, pois o jogo terminou em clima de celebração do fair play, inclusive na arquibancada. Longe de ser uma utopia, essa prática no ambiente de trabalho pode melhorar os relacionamentos de tal ordem que certas questões delicadas, como a disputa por uma promoção, ou até mesmo uma demissão, venham a se tornar questões secundárias. Sem dúvida alguma haveria menos “catimbas” ocupacionais também. Se a prática do fair play no futebol consegue aproximar torcidas num estádio, que dirá dos seus benefícios em um ambiente corporativo!
Fonte: Conjur