Na última sexta-feira, chegou ao final a edição de verão da São Paulo Fashion Week, evento que reuniu marcas, modelos, estilistas e amantes da moda durante cinco dias. Em meio a desfiles, corpos, novas tendências, algumas polêmicas e agito, uma notícia ganhou destaque: fiscais do Ministério Público do Trabalho e da Receita Federal encontraram 29 bolivianos que trabalhavam em regime de escravidão em uma oficina clandestina na zona leste de São Paulo.

Eles trabalhavam mais de 12 horas por dia, de segunda a sábado, e recebiam R$ 4 por cada peça de roupa – as mesmas que enfeitam vitrines de lojas conhecidas como Cori, Emme e Luigi Bertolli, pertencentes à empresa GEP, e são vendidas a preços muito mais ”salgados”.

O grupo GEP afirmou que desconhecia as condições de trabalho dos bolivianos, funcionários de uma empresa terceirizada.

Na repercussão noticiada na mídia, as opiniões de consumidores e pessoas ligadas ao mundo da moda não são unânimes. De um lado, há os que dizem que deixariam de consumir produtos de marcas ligadas ao trabalho escravo. De outro, aqueles que acham que não faz diferença consumir tais produtos. O pensamento no melhor estilo “uma blusinha só não tem problema”.

Não é de hoje que renomadas marcas do mundo da moda se envolvem em escândalos desse tipo. Em 2011, a fiscalização trabalhista flagrou trabalhadores submetidos a condições de trabalho análogas à escravidão na linha de produção de peças da marca Zara.

Em reportagem da ONG Repórter Brasil, a auditora fiscal Giuliana Cassiano Orlandi comentou sobre como a escravidão pode estar próxima a pessoas comuns. “Mesmo um produto de qualidade, comprado no shopping center, pode ter sido feito por trabalhadores vítimas de trabalho escravo”. Para ela, a superexploração dos empregados, que têm seus direitos laborais e previdenciários negados, é motivada essencialmente pelo aumento das margens de lucro. Sempre ele…

O impacto ambiental
Do outro lado do mundo, eventos recentes de moda em Paris e Milão destacaram temas ambientais.

Na Semana de Moda de Paris, a estilista britânica Stella McCartney apresentou nas passarelas uma coleção com materiais biodegradáveis. Peles e couros deram lugar a casacos e vestidos feitos a partir de lã e algodão orgânicos.

Já na cidade italiana, a ação ficou por conta do Greenpeace: uma passarela vertical foi levantada na fachada do Castelo Sforzesco, um dos cenários-sede do evento. Uma “ativista-modelo” mandou o recado às grandes marcas internacionais: é preciso adotar políticas sustentáveis na produção de suas coleções.

Segundo o Greenpeace, a indústria têxtil é uma das principais fontes de poluição da água em países como China e México. Por trás do glamour, as cadeias de produção utilizam produtos químicos que poluem as águas e couro proveniente de áreas desmatadas na Amazônia. “Exigimos das grandes marcas que se envolvam na tendência de mercado que está mais em voga atualmente: roupas bonitas e desvinculadas da destruição das florestas ou da poluição tóxica de nossos recursos hídricos”, diz o Greenpeace.

A ação faz parte da campanha Duelo da Moda, um ranking que propõe uma disputa entre as marcas por uma produção mais sustentável. A grife italiana Valentino lidera a lista, já que se comprometeu a eliminar todos os lançamentos de produtos químicos tóxicos e a adotar o desmatamento zero em toda a sua cadeia de fornecimento.

Marcas famosas como Prada, Chanel, Hermès e Dolce & Gabbana aparecem no final da lista por falta de ações e posicionamento.

Consumir melhor
Mais do que ditar tendências, a moda reflete a forma como consumimos e nos enxergamos. Como qualquer outra indústria, está submetida às lógicas de mercado e esconde bastidores ignorados pela maioria.

Marcas importantes que se valem de trabalho escravo, utilizam produtos químicos tóxicos, poluem e desmatam são as mesmas que, nos manequins, expõem nosso estilo de vestir – uma forma essencial e encantadora de nos comunicarmos com o mundo por meio da imagem.

Se a decisão sobre como consumir é a principal arma de quem faz a roda girar – os consumidores – que seja feita de forma consciente, sem banalizar o sentido da verdadeira consciência que nos torna mais humanos.

Isso serve para tudo: de comida a objetos eletrônicos, de informação a roupas e sapatos. Ser consumidor, no sentido mais pleno do verbo “ser”, é tomar para si a responsabilidade de decidir. Não importa se, aparentemente, “não faz diferença”. A diferença, afinal, tem que fazer sentido para a vida de cada um.
Fonte: SUPER

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